10/07/2026 - Edição 2310
Dói a alma passar pelas ruas da Ilha do Governador à noite e encontrar tantas pessoas dormindo sob marquises de prédios comerciais, lojas e até nas passarelas. É uma cena que se repete todos os dias e que, por mais terrivelmente comum que tenha se tornado, jamais deveria ser encarada com naturalidade.
Cada homem, cada mulher, cada jovem ou idoso que vive ao relento carrega uma história marcada por perdas, rupturas e sofrimento. Ninguém escolhe ter a calçada como endereço ou enfrentar as noites frias de inverno e os dias de chuva sem proteção. O silêncio dessas pessoas é ensurdecedor. É um sofrimento que muitas vezes passa despercebido por quem segue apressado na rotina, mas que denuncia uma profunda dívida social com os absolutamente vulneráveis.
Mais do que oferecer um prato de comida ou um agasalho — gestos importantes e indispensáveis —, é preciso construir caminhos que devolvam dignidade, autonomia e esperança. Essas pessoas precisam de oportunidades reais para recomeçar.
É hora de transformar a compaixão em compromisso. O poder público, em todas as suas esferas, deve assumir a obrigação urgente de criar e manter políticas públicas permanentes de acolhimento, assistência social, tratamento para dependência química quando necessário, apoio psicológico, qualificação profissional, acesso à moradia e inserção no mercado de trabalho. Não podem ser ações esporádicas, mas programas estruturados, contínuos e capazes de oferecer uma verdadeira nova oportunidade de vida.
Não podemos aceitar que homens e mulheres continuem invisíveis, abandonados à própria sorte. Eles não precisam apenas de nossa solidariedade. Precisam, sobretudo, de respeito, proteção e de políticas públicas obrigatórias que lhes devolvam o direito de sonhar com um amanhã melhor.
Por trás de cada rosto esquecido existe um ser humano que sofre muito e merece uma nova chance para reconstruir a própria história. Não podemos estar felizes quando tantos têm fome e estão abandonados nas ruas, muitas vezes revirando o lixo em busca de restos de comida. É humilhante!
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