31/07/2026 - Edição 2313
Sou morador da Ilha do Governador há mais de 50 anos e busco incluir meu cotidiano em minhas crônicas e análises, associando minha visão de engenheiro à de morador e por ter operado diversos órgãos e empresas públicas. A Ilha é parte imensa da minha história, da minha memória e, principalmente, da maneira como aprendi a enxergar o mundo. Foi nessa linha que aceitei o honroso convite do Ilha Notícias para iniciar esta coluna, em forma de conversa e com um olhar e uma abordagem que espero despertar percepções e interesses.
Quem conhece a Ilha apenas como um lugar para morar talvez ainda não tenha percebido completamente o imenso potencial econômico da nossa região. O aeroporto do Galeão nos coloca em posição logística privilegiada, próximo à UFRJ e à COPPE, localizadas na Ilha do Fundão, formando um polo vital de pesquisa e inovação.
O anúncio recente da BYD de um investimento de R$ 300 milhões para um Centro de Testes Automotivos de 180 mil metros quadrados com previsão de início das obras nos próximos 12 meses, reforça nossa participação em uma nova economia baseada em tecnologia, mobilidade elétrica, pesquisa e inovação.
A poucos quilômetros dali, temos o Parque Tecnológico da UFRJ, de cuja criação participei como então Secretário de Energia e Petróleo, reunindo empresas, pesquisadores, laboratórios e conhecimento científico.
Também é importante olhar para a infraestrutura que sustenta esse desenvolvimento. A possível expansão da rede de gás natural na Ilha, anunciada pela Naturgy, ou por quem venha a sucedê-la, mostra que investimentos dessa natureza precisam caminhar junto com a capacidade de atender novos empreendimentos, residências, comércio e indústria.
Mas é justamente neste ponto que precisamos ter cuidado. Desenvolver a Ilha não pode significar simplesmente ocupar espaços, aumentar o fluxo de veículos ou adensar a região sem planejamento.
Precisamos pensar também no futuro da Baía de Guanabara e em sua relação com a Ilha, com o Aeroporto do Galeão, com a Ilha do Fundão e o restante da cidade.
A pergunta que devemos fazer não é se queremos desenvolvimento. É que tipo de desenvolvimento queremos e como o faremos. Precisamos transformar nossa localização estratégica em benefícios que possam ser percebidos pela comunidade.
É com esse olhar que inicio esta coluna, com o "olhar do engenheiro", mas também como alguém que aqui nasceu como cidadão e que não deixará de olhar para a memória, para as pessoas e para o ambiente que nos cerca.
A Ilha pode, sim, continuar a ter protagonismo no futuro do Rio de Janeiro. Mas esse futuro precisa ser construído com planejamento, responsabilidade e respeito por quem escolheu este lugar para viver.
*Wagner Victer é Engenheiro, Administrador e Professor da Fundação Getúlio Vargas